Crítica de Ostrácia por Carlos Morais, publicada em facebook

Ostrácia, o melhor romance bolchevique e de amor escrito na Galiza

Tivem o privilégio de ler Ostrácia antes de que saisse do prelo. Desfrutei e aprendim muito das suas páginas. Nom sou crítico literário nem últimamente conto com o tempo psicológico para derovar literatura como em outras etapas vitais. Porém, este romance enredou-me desde as primeiras páginas, gerando essa necessidade irremediável de ler e ler até culminar atingir o final, mas sempre tentado atrasar o desenlace para que o prazer das letras em tinta nom se apague. E voltar a retomar de novo a sua leitura para desfrutar das suas mais intensas emoçons que laceram com fantasia os piores dias de ferro e fel.

Ostrácia é a mais elaborada apologia literária da rebeldia e a subversom leninista realizada na Galiza porque quebra com um intenso e sublime estilo narrativo todos os tópicos e leituras fossilizadas do grande dirigente revolucionário comunista, realizadas pola ditadura mediática da burguesia.

Apresenta a Vladimir Ilich como é que realmente era, um homem excecional, mas de carne e osso, carregado de um imenso amor pola humanidade, e portanto um ser apaixonado, que amou intensa e simultáneamente a juventude e vitalidade de Inessa Armand e a experiência e serenidade de Nádia Krupskaia. E os amores ardentes som contraditórios e dolorosos, mas nom poi isso devemos rejeitá-los. “O amor é um deus cego, que dispara setas à toa, e os pobres humanos, com a seta cravada no coraçom, só podemos decidir se havemos de satisfazer as exigências do corpo ou entom olhar para outra parte a assobiar”.

Identifiquei-me muito com Ostrácia porque as suas protagonistas nom som alheios a minha vida, porque a etapa histórica na que se desenvolve o romance sempre me fascinou e porque conhecendo a sua autora, umha maior curiosidade alimentou a minha necessidade de saber como edificou este magnífico título da nossa literatura.

Para quem nom saiba qual é a trama deste fermoso livro tam só dizer que é a imperfeita história triangular de amor entre Lenine, a sua leal companheira Nádia Krupskaia e Inessa Armand, quem injustamente passou à história como a sua amante. Portanto é umha história de amor e desamor!

Mas Ostrácia é muito mais que isso, é um conto de aranhas e lobos árticos, é um tratado de práticas e fantasias eróticas; é um ensaio sobre a vigência e a necessidade da Revoluçom Socialista/Comunista; e umha novela historiográfica bem documentada que combina com extraordinária mestria rigor e fantasia; é um romance com inocultáveis elementos autobiográficos.

Teresa Moure novamente voltou a demonstrar que é capaz de superar-se, de atrever-se a incursionar com o seu caraterístico espírito transgressor num campo alheio ao tradicional sistema literário galego, o da novela político/histórica nom hegemonizada pola cosmovisom do nacionalismo galego ou enquadrada no levantamento militar fascista de 1936 e os anos de extermínio da postguerra.

Foi capaz de abordar um tema ainda tabu em boa parte da esquerda revolucionária, quem nom logrou superar a incomodidade puritana de assumir Lenine como um homem deste mundo, com desejos, sonhos e fantasias amorosas, que se deixava tentar polo “pecado”, capaz de turbar-se. Pois “nunca saberemos se ao Lenine lhe tremiam os dedos ao desatar o espartillo da Inessa”, “Nom saberemos se ele, que media os tempos com tanta efetividade na política, sabia regular-se tam bem na cama”.

O episódio no que relata o banho “inocente/indecente” naquel tórrido verao em Longjumeau atinge a perfeiçom. Inessa Armand num arrebato de enorme atrevimento e coragem numha plácida tarde de lazer no rio Sena, entre camaradas e diante de Lenine “começou a despir a roupa, peça a peça, devagar, tranquila e sem deixar de falar …. Um por um libertou os botonzinhos da camisola e os peitos surgirom, grandes, macios, com os mamilos arrebitados por causa do frio. Nesse instante, ninguém sabia se devia atrever-se a olhar para lá, de maneira que todos procurarom um objetivo: olha, há umha troita, nom é umha troita, vamos ver, vamos ver. Só o Vladimir Ilich, impasível, sério, continuou de olhos fitos, calmo, na mulher que se estava a revelar para ele. Alguns olhares som difíceis de suportar, de maneira que os covardes tendem a baixar os olhos quando a tensom é excessiva. Só os realmente valentes conseguem olhar para umha mulher que se despe sem retirarem os olhos. Só as realmente valentes conseguem olhar despidas para um homem vestido que nom mexe nem um olho”.

Ostrácia é ante todo um ensaio de amor, de combate ao amor convencional burguês, mas também à falaz teorizaçom do anti-amor construida por um setor da inteletualidade feminista que nega a possibilidade e a força incomensurável do amor eterno. “O amor, com efeito, é umha fonte energética extraordinariamente nutritiva”, “nada produz mais energia que o amor”, “A revoluçom é, sem dúvida a forma mais elevada de Desejo” extraimos das suas entranhas.

Fago minas as reflexons da Teresa Moure de que nom cabe esperar por príncipes, mas “sim cabe esperar pola confiança absoluta. Porque, noutro caso, se o amor se tornar um sentimento doméstico, bem pautado, com regras de jogo justas e equilibaradas, talvez deixe de ser amor para tratar-se dumha limpa e regrada-transaçom-comercial ou de um afeto-módico-e-civilizado” e numha asseveraçom sem suficiente rigor histórico, coincido com Lenine em ser precavido com o Amor Livre pois “o amor é a paixom menos livre que existe”.

Coincido que para nada é disparatado afirmar que as contínuas dores de cabeça que padecia o lider da Revoluçom bolchevique estavam provocadas nom só pola sua má saude, mas sim “porque as mulheres bolcheviques nom lhe davam trégua”. E tampouco em absoluto é descartável que, além das enormes sequelas do atentado que outra mulher, a militante eserista Fanny Kaplán provocou em Lenine em agosto de 1918, a sua morte prematura poda também ser resultado da ausência da Inessa, sem a qual “a vida nom vale a pena ser vivida”.

O marxismo-leninismo ao que adire Teresa Moure nom é o desses tijolos antidialéticos dos manuais soviéticos que criticava o Che, mas sim o da alegria, a luz, as cores e os sons, porque novamente citando Ostrácia “O comunismo nom implica ascetismo, mas alegria de viver e umha vida amorosa satisfeita ajuda a conseguir essa alegria”.

Teresa Moure define Ostrácia como um lugar onde todos e todas algumha vez estivemos de forma mais permanente ou no melhor dos casos mais esporádicamente, na maioria das ocasions contra a nossa própria vontade. Ostrácia é umha prova de lume a que nos submete a nossa existência. Eis polo que afortunadamente nos relata as 12 provas imprescindíveis para poder sair vivo desse estado de postergaçom. Ao contrário de muitas outras pessoas com as quais compartilho a fortuna de termos logrado fugar-nos de Ostrácia, tenho que confesar que o logrei superando tam só 9 condiçons e meia: julgamento injusto, amizades traidoras, desprezo dos meus, sanha dos guardians, sono, dor, frio, ausência de carícias, falta de notícias, mas sim sem ter tido fame e sede mais que de amores, e tam só cumprindo parcialmente com a autocrítica.

Ostrácia contribui a reforçar algumhas das minhas mais profundas conviçons e princípios, a reforçar o meu orgulho comunista, a identicar-me mais com Lenine, a comprender dialéticas que quase nunca aparecem nos tratados marxistas, e básicamente a confiar mais na necessidade de que a nossa luita tem que ir sempre acompanhada e armada de amor, e umha enorme alegria de viver.

Obrigado e parabens Teresa, camarada e amiga, por ter escrito Ostrácia. Agora ficamos à éspera do seguinte.

Nom quero finalizar sem umha última cita. “se umha paixom verdadeira se cruzar no seu caminho, nom duvidem: escolham o insulto de quem caminha pola rua sem saudar, escollham afastar-se mesmo do pai e da mae, mas escolham o amante. Se um rio nom se atrevesse a fluir, se umha ponte duvidasse se cruzar à outra beira por medo do que la puidesse encontrar, se umha árvore nom se alçasse desafiante contra a terra que a nutre …, entom nom existiria o mundo”.

Galiza, 4 de dezembro de 2015

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