Decorreram dez anos após aquela Herba moura (Erva do diabo). Nunca pretendi que fosse o que foi. Queria escrever uma história de contra-poder, um berro coletivo das anónimas na história, uma ironia sobre as existências e o sucesso. Mas, contra todo prognóstico, Herba moura tornou um texto (algo) referencial e fiquei desautorizada para declarar o que sentia: que todas aquelas edições em línguas estrangeiras que focavam o tema em Descartes e numa reivindicação das mulheres bravas nos romances histórico-sentimentais manipulavam a intenção autorial. Por isso, quando comecei a interessar-me por Inessa Armand soou-me a maldição. E, contudo, era tão fecunda a história, tão fascinante, que a energia da Inessa foi entrando pelas minhas veias até que não tive mais que declarar-me rendida. E tornei personagem, fiz parte do relato, entrei e fiquei despida. Absolutamente.
Primavera bolchevique, primavera a arder (um pouco antes de 2017 porque os séculos não são assim tão científicos).